
de Hugo Santarem Rodrigues

Foto esquerda.
Fotógrafo: Hugo Santarem Rodrigues.
Local: Goa, Índia.
Ano: 2024.
Foto direita.
Fotógrafo: Hugo Santarem Rodrigues.
Local: Pernambuco, Brasil.
Ano: 2024.
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Foto esquerda.
Fotógrafo: Hugo Santarem Rodrigues.
Local: Goa, Índia.
Ano: 2024.
Foto direita.
Fotógrafo: Marcel Gautherot.
Local: São Luís, Brasil.
Ano: 1958.
GABRIELA SEM
CRAVO E CANELA
"Seria possível imaginar a personagem Gabriela, de Jorge Amado, sem cravo e canela? Gabriela, a sertaneja de pele morena, é uma mistura de negra, europeia e indígena, que compõe o povo brasileiro. Mas o tempero que a descreve é oriental.
O tempero, de forma implícita, também denota sua cor e sua etnia. Seria, então, possível que o brasileiro seja mais próximo do oriental do que se pensava?
Ninguém conseguiria imaginar uma Gabriela sem cravo e canela, assim como é impossível imaginar um Brasil sem coqueiros, cana-de-açúcar e tantos elementos que foram trazidos da Ásia com o intuito de construir esse novo território reconfigurado pelas ambições coloniais."
Hugo Santarem Rodrigues


Foto esquerda.
Fotógrafo:
Hugo Santarem Rodrigues.
Local: Kerala, Índia.
Ano: 2024
Foto direita.
Fotógrafo:
Hugo Santarem Rodrigues.
Local: Pernambuco, Brasil.
Ano: 2024
"Quem controla o passado,
controla o futuro.
Quem controla o presente,
controla o passado."
George Orwell
"A minha investigação sobre as origens das culturas brasileiras, utilizando a iconografia e a semiótica como métodos de pesquisa, iniciou-se em 2014. Ampliei meu método de pesquisa ao fazer um teste de DNA para conectar minhas origens às possíveis origens de manifestações culturais brasileiras, somando ao meu projeto a ciência e a camada pessoal de busca pela minha ancestralidade. Essa autoetnografia chamava-se “Interior”. Viajei à África ao menos quatro vezes com esse intuito.
Esgotadas minhas possibilidades de pesquisa, voltei-me a outra bibliografia, que apontava para origens orientais e hibridações culturais pelo trânsito transnacional de portugueses pelas Carreiras da Índia e suas trocas e permanências na África e nas Américas. Tratavam-se de bibliografias que desafiavam a historiografia oficial.
Somei minhas novas descobertas à minha pesquisa iniciada em 2004 sobre trabalho escravo contemporâneo no Brasil, que resultou no projeto audiovisual e longa-metragem “Pureza”. Durante o projeto “Pureza” descobri como estruturas de poder se impõem e criam narrativas oficiais, e questionamentos iniciais da minha pesquisa (projeto criado por mim, mas na qual fui creditado pela ideia original) não foram utilizados no escopo da obra final. Esse processo me deu a vivência para começar a teorizar o que denominei de “Manipulação do Trauma da Escravidão”. Esse conceito descreve como as elites vigentes operam narrativas para manutenção de seus espaços de poder utilizando o trauma coletivo de nossa sociedade devido à herança da escravidão. Processos que hoje consigo entender como colonialidade do poder, colonialidade do saber e extrativismo epistêmico.
Foi no interior dessa estrutura acadêmica e social em que arquivo, narrativa e autoridade acadêmica se impõem que nasceu a gênese da minha hipótese de indo-brasilidade: “Se a Índia ocupava posição estratégica no colonialismo português, por que essa experiência aparece com peso reduzido na historiografia brasileira?”.
Foi esse repertório de pesquisas complementares que me possibilitou descobrir uma estrutura de recortes historiográficos que mantém o Brasil em uma estrutura colonialista. Esse dispositivo eu nomeei de “Mito da Imigração”, no qual apresento provas concretas de que o que o que chamam de “grande imigração” no Brasil fez parte de um projeto de colonialismo.
O objetivo central desse dispositivo é o distanciamento do Brasil dos debates e metas internacionais de descolonização, e para a manutenção dessa nova estrutura colonialista operam-se recortes historiográficos como o que apagou as origens indo-lusitanas de manifestações culturais brasileiras."
Hugo Santarem Rodrigues
INDO-BRASILIDADE
por Hugo Santarem Rodrigues
O debate sobre apagamentos históricos não deve ser dissociado do sistema que os viabiliza.
A seleção de recortes historiográficos, a reorientação da memória nacional e a institucionalização de vieses servem para legitimar assimetrias de poder. Nesse sentido, minha pesquisa, que sustento ser pioneira em identificar as origens indo-lusitanas de culturas tradicionalmente atribuídas à brasilidade, abriu caminho para uma segunda linha investigativa: Quais estruturas e regimes produziram e canonizaram esses recortes?
Minha investigação utiliza a fotografia como instrumento de pesquisa semiótica, transformando-a em ferramenta de construção de evidências sobre as transferências e hibridizações entre a Índia e a América portuguesas. Ao confrontar fontes primárias e bibliografia crítica com a investigação empírica in loco, ficou evidente que o apagamento de manifestações não foi aleatório. Nesse sentido, as manifestações culturais tornam-se arquivos vivos de uma memória luso-oriental e de conexões indo-brasileiras. O resgate da formação dessas culturas através de metodologia semiótica e de histórias comparadas possibilita uma lente de leitura que resgata a própria formação do Brasil.

Foto esquerda.
Fotógrafo: Hugo Santarem Rodrigues.
Local: Chennai, Índia.
Ano: 2024.
Foto direita.
Fotógrafo: Hugo Santarem Rodrigues.
Local: Brasília, Brasil.
Ano: 2024.
No campo contemporâneo de enquadramento pós-colonial, ou decolonial, a formação do Brasil tornou-se uma alegoria que fundamenta as mazelas sociais brasileiras, e a figura do “português colonizador” deixou de ser um personagem histórico e transmutou-se no vetor de falhas estruturais do Brasil e do brasileiro.
A construção do personagem “português colonizador”, tal como cristalizada nos principais recortes da historiografia contemporânea, opera menos como descrição empírica de sujeitos históricos e mais como persona discursiva: um tipo com atributos morais inferiores, inseparável da intolerância racial e religiosa. A partir desse enquadramento, o comportamento do brasileiro tende a ser narrado como produto dessa personalidade, e as manifestações culturais seriam resultado de resistências contínuas.
Em vez de trazer à luz a complexidade do período histórico e as dimensões da experiência humana quatrocentista e quinhentista, reduzem-se os quase 400 anos de formação do Brasil a uma narrativa majoritariamente desumanizada. Assim, consolida-se uma barreira institucional e social na qual qualquer interpretação sobre o brasileiro ou o português colonial precisa ser, primeiramente, filtrada por esse ethos descritivo de resistência e violência sistêmica.
A minha investigação sobre as origens das culturas brasileiras, utilizando a iconografia e a semiótica como métodos de pesquisa, iniciou-se em 2014. Ampliei meu método de pesquisa ao fazer um teste de DNA para conectar minhas origens às possíveis origens de manifestações culturais brasileiras, somando ao meu projeto a ciência e a camada pessoal de busca pela minha ancestralidade. Essa autoetnografia chamava-se “Interior”. Viajei à África ao menos quatro vezes com esse intuito. Esgotadas minhas possibilidades de pesquisa, voltei-me a outra bibliografia, que apontava para origens orientais e hibridações culturais pelo trânsito transnacional de portugueses pelas Carreiras da Índia e suas trocas e permanências na África e nas Américas. Tratava-se de bibliografias descartadas ou desconsideradas pela historiografia oficial.
Somei minhas novas descobertas à minha pesquisa iniciada em 2004 sobre trabalho escravo contemporâneo no Brasil, que resultou no projeto audiovisual e longa-metragem “Pureza”. Durante o projeto “Pureza” descobri como estruturas de poder se impõem e criam narrativas oficiais, e questionamentos iniciais da minha pesquisa (projeto criado por mim, mas na qual fui creditado pela ideia original) não foram utilizados no escopo da obra final. Esse processo me deu a vivência para começar a teorizar o que denominei de “Manipulação do Trauma da Escravidão”. Esse conceito descreve como as elites vigentes operam narrativas para manutenção de seus espaços de poder utilizando o trauma coletivo de nossa sociedade devido à herança da escravidão. Processos que hoje consigo entender como colonialidade do poder, colonialidade do saber e extrativismo epistêmico.
Foi no interior dessa estrutura acadêmica e social em que arquivo, narrativa e autoridade acadêmica se impõem que nasceu a gênese da minha hipótese de indo-brasilidade: “Se a Índia ocupava posição estratégica no colonialismo português, por que essa experiência aparece com peso reduzido na historiografia brasileira?”.
Ao reconfigurar a História do Brasil do ponto de vista lusitano e indo-lusitano, fui confrontado com a percepção de que esse ponto cego interpretativo da história brasileira poderia ter sido menosprezado justamente porque humaniza a figura do “português colonizador”, atribuindo a ele personalidades como o imaginário, o devoto e o místico, e em casos comprovados, de altruísmo e hibridação cultural. Com isso, temos que nos adentrar nos dramas ibéricos, na pobreza, na fome, e nos movimentos de resistência que os próprios lusitanos tiveram que travar. Humaniza-se o lusitano, e por consequência, humaniza-se a História do Brasil. O sujeito “português colonizador” deixa de ser a persona intolerante, violenta e preguiçosa, que só consegue sobreviver através da escravidão e da submissão de estrangeiros. Ao tratar a História do Brasil como capítulo articulado à História do Império Português, tornei visível meu próprio ponto cego interpretativo e, simultaneamente, recuperei minha relação com a ancestralidade lusitana. Percebi que eu mesmo reproduzira uma dissociação: dentro da minha miscigenação, o componente lusitano era aquele a que eu atribuía menor interesse e menor amplitude humana.
Nesse percurso, uma nova linha investigativa tornou-se poderosamente urgente. O processo de recuperar um “apagamento histórico” possibilitou puxar um fio do novelo que possibilitaria desvelar a arquitetura desenhada para a institucionalização de recortes historiográficos que beneficiam uma parcela da população brasileira que, não coincidentemente, é onde se encontra a maior parcela da elite e da classe média alta do Brasil. No contexto brasileiro, a linguagem do “decolonial” foi apropriada como capital simbólico, convertendo-se em retórica de moralização que, paradoxalmente, desloca a responsabilidade histórica da permanência de estruturas coloniais no Brasil para os grupos socialmente mais vulneráveis. Assim, os “mais pobres” são reinterpretados como herdeiros do colonizador, enquanto colonos inseridos em arranjos de povoamento e incentivados por políticas estatais são reinterpretados como “imigrantes”, categoria moralmente positivada. Nessa construção, o “apagamento” não é acidente: ele integra um circuito de violência epistemológica que organiza o que pode ser lembrado, o que pode ser dito e quem pode falar com autoridade sobre o passado.
A colonização é naturalizada sob o arranjo sociocultural em que a figura do colonizador se justifica em superioridade cultural e moral sobre o colonizado. A transição semântica do “colonizador europeu” como símbolo de moralidade no fim do século XIX e início do século XX para se consolidar como o vetor de violências estruturais no contexto pós-Segunda Guerra exigiu que o grupo historicamente pró-colonização do contexto brasileiro reorganizasse a percepção nacional para que a historiografia da colonização fosse entendida somente como o recorte luso-brasileiro, e como tal, carregava toda a violência colonial.
Por isso, reconheço que minha hipótese inicial buscava se enquadrar ao cânone descolonial massificado no contexto brasileiro: atribuí diretamente às matrizes luso-brasileiras a transposição de uma estrutura de castas oriental para o território brasileiro pelo “português colonizador” e tratei sincretismos culturais orientais como parte de um processo de apropriação cultural instrumentalizado em benefício do colonizador.
O avanço da pesquisa me levou ao confronto dessas ideias diante de novas fontes primárias, bibliografia crítica, interpretações concorrentes e, como fator determinante, à minha investigação empírica in loco em territórios da antiga Índia Portuguesa. A soma dessas experiências me impôs uma revisão completa, na qual ficou evidente que o processo de apagamento das hibridações orientais na cultura luso-brasileira (como no entrudo carnavalesco, no maracatu, no bumba-meu-boi e cavalo-marinho) não ocorreu de forma aleatória. Essas manifestações culturais se transformaram em arquivos vivos de apagamentos sistemáticos, que só podem ser entendidos no interior do processo de desconstrução da memória luso-brasileira, reduzindo o ethos português a um ser monolítico e desumanizado. Essa desestruturação deforma e transfigura as experiências humanas da maioria dos antepassados dos brasileiros menos privilegiados e o efeito não é apenas historiográfico, afeta diretamente a percepção coletiva sobre as experiências humanas dos antepassados das pessoas com menor possibilidade de investigar a fundo sua própria história: um ato de violência simbólica e traumatizante contra todo um povo, o povo brasileiro.
Sustento que essa persona discursiva, solidificada pela historiografia contemporânea, funciona como gramática justificadora dos projetos de imigração e colonização de povoamento do final do século XIX e início do XX. A preferência institucional por recortes historiográficos que descrevem o Brasil como espaço intrinsecamente violento, “atrasado” e culturalmente marcado por matrizes lusitanas, indígenas e africanas é mobilizada como retórica acadêmica para deslocar as consequências dos processos imigratórios, do colonialismo de povoamento e do regime de colonialismo interno consolidados pelo Estado brasileiro em conjunto com companhias colonizadoras estrangeiras e pelos próprios colonos e seus descendentes. Eu descrevo esse processo em "Mito da Imigração".

BRASIL:
A ÍNDIA QUE PORTUGAL CRIOU.


